Você sabe o que é DGL? Aprenda a fazer o trabalho correto.

O leite, alimento indispensável no nosso dia a dia, é composto por vários nutrientes sendo que os mais abundantes são a água, os açúcares, proteína, gordura, minerais e vitaminas. Entre todos estes nutrientes, a concentração ou teor de gordura é o componente que mais sofre variação, e este é afetado por inúmeros fatores fisiológicos e ambientais, entre eles, a alimentação e o manejo nutricional dentro da fazenda.
Quando observamos quedas drásticas no teor de gordura do tanque, geralmente valores que vão abaixo de 3,3%, ou inversão na relação entre a concentração de gordura e proteína, isto é, a razão do teor de gordura e proteína é menos que um (gordura/proteína<1) podemos estar identificando um grande desafio na produção de leite conhecido como DGL ou depressão na gordura do leite.
A DGL é causada por mudanças específicas no padrão de fermentação ruminal. Nesse caso, alterações de biohidrogenação ruminal de ácidos graxos insaturados, provenientes da dieta, resultam na passagem para o intestino, de novos subprodutos intermediários, que subsequentemente, causam redução na síntese de gordura pela glândula mamária. Entre todos os fatores nutricionais que possam comprometer a produção de ácidos graxos pela glândula mamária, resultando em DGL, dois são fundamentais: oferta de ácidos graxos poli-insaturados da dieta e alteração no padrão de fermentação ruminal.
Nos mais variados sistemas de produção de leite no Brasil, a baixa oferta e qualidade do volumoso tendem a ser substituídas por maiores níveis de concentrado na dieta, e estes grãos, além da grande quantidade de amido e carboidratos não fibrosos (CNF) altamente fermentescíveis, podem apresentar maiores concentrações de óleos e gorduras, provenientes principalmente de subprodutos de oleaginosas, tais como soja, algodão, amendoim, girassol e canola.
Dessa forma, os baixos valores de sólidos encontrados no nosso leite estão intimamente ligados aos inúmeros desafios de manejo na rotina diárias das nossas fazendas. A manutenção de níveis ótimos de produção de gordura no leite representa valores que vão além da remuneração feita pelo laticínio, uma vez que a capacidade de síntese de ácidos graxos pela glândula mamária representa, inclusive, um importante marcador de saúde, e consequentemente, produtividade do rebanho.
Síntese de gordura no leite
A gordura do leite é composta por dois grupos principais de ácidos graxos. Geralmente, 50% dos ácidos graxos do leite são formados por ácidos graxos de cadeia longa, isto é, maiores ou iguais a 16 carbonos. Os outros 50% são formados por ácidos graxos de cadeia curta e média, ou seja, menores ou iguais a 14 carbonos. Os ácidos graxos de cadeia longa (>16 C) são provenientes tanto da quantidade de óleo e gordura da dieta, como também da gordura originada na queima da reserva corporal. Ambos são captados pela glândula mamária e incorporados à gordura do leite.
Os ácidos graxos de cadeia curta (<14 C) são sintetizados pela glândula mamária, por precursores como acetato e butirato, através de um mecanismo conhecido por “de novo síntese”. Quando ocorre DGL, os ácidos graxos que apresentam concentração reduzida são aqueles com 14 C ou menos. Esse resultado é um indicativo que a DGLocorre quando a própria glândula mamária diminui sua própria produção de gordura (Figura 1)
Biohidrogenação ruminal
Mesmo que, geralmente, dietas de ruminantes contenham baixa concentração de óleos e gorduras quando comparadas com as dietas de outras categorias animais, o fornecimento de alguns tipos de forragem, grãos, suplementos a base de óleos e outros subprodutos para vacas de leite podem resultar em significante ingestão de ácidos graxos poli-insaturados. Os ácidos graxos provenientes da dieta na sua maioria são esterificados na forma de triglicerídeos. Uma vez no rúmen, os ácidos graxos são hidrolisados e os ácidos graxos insaturados resultantes passam a ser isomerizados, quando ocorre mudança da posição da dupla ligação, e biohidrogenados, quando ocorre remoção da dupla ligação ou insaturação (Figura 2).
Figura 1. Síntese de ácidos graxos pela glândula mamária.
Síntese de gordura no leite
A gordura do leite é composta por dois grupos principais de ácidos graxos. Geralmente, 50% dos ácidos graxos do leite são formados por ácidos graxos de cadeia longa, isto é, maiores ou iguais a 16 carbonos. Os outros 50% são formados por ácidos graxos de cadeia curta e média, ou seja, menores ou iguais a 14 carbonos. Os ácidos graxos de cadeia longa (>16 C) são provenientes tanto da quantidade de óleo e gordura da dieta, como também da gordura originada na queima da reserva corporal. Ambos são captados pela glândula mamária e incorporados à gordura do leite.
Os ácidos graxos de cadeia curta (<14 C) são sintetizados pela glândula mamária, por precursores como acetato e butirato, através de um mecanismo conhecido por “de novo síntese”. Quando ocorre DGL, os ácidos graxos que apresentam concentração reduzida são aqueles com 14 C ou menos. Esse resultado é um indicativo que a DGLocorre quando a própria glândula mamária diminui sua própria produção de gordura (Figura 1)
Biohidrogenação ruminal
Mesmo que, geralmente, dietas de ruminantes contenham baixa concentração de óleos e gorduras quando comparadas com as dietas de outras categorias animais, o fornecimento de alguns tipos de forragem, grãos, suplementos a base de óleos e outros subprodutos para vacas de leite podem resultar em significante ingestão de ácidos graxos poli-insaturados. Os ácidos graxos provenientes da dieta na sua maioria são esterificados na forma de triglicerídeos. Uma vez no rúmen, os ácidos graxos são hidrolisados e os ácidos graxos insaturados resultantes passam a ser isomerizados, quando ocorre mudança da posição da dupla ligação, e biohidrogenados, quando ocorre remoção da dupla ligação ou insaturação (Figura 2).
Figura 1. Síntese de ácidos graxos pela glândula mamária.


Figura 2. Exemplo de triglicerídeos e de ácido graxo insaturado.


É importante lembrar que a extensão da biohidrogenação e a formação de ácidos graxos intermediários são determinadas pelas propriedades de cada fonte de gordura, tempo de retenção no rúmen e características da população microbiana. Fatores inerentes à dieta que modificam o padrão de fermentação ruminal, principalmente a alta concentração de amido, alta concentração de óleos e inclusão de monensina sódica alteram o metabolismo ruminal de ácidos graxos, resultando numa população microbiana que utiliza caminhos alternativos para biohidrogenação. Quando esses caminhos alternativos não se completam, o risco de DGL aumenta.
Os ácidos graxos do tipo trans- são metabólicos intermediários normalmente encontrados no líquido ruminal (Figura 3). Eles são sintetizados durante o processo de biohidrogenação de ácidos graxos poli-insaturados pelos micro-organismos do rúmen. Uma vez que a hidrogenação de ácidos graxos insaturados é incompleta, a passagem de ácidos graxos trans- para o duodeno aumenta.

Figura 3. Biohidrogenação durante fermentação ruminal normal e alterada.


Depressão da gordura do leite
Pesquisadores das universidades de Cornell e Maryland observarem que a DGL está relacionada com a quantidade de ácidos graxos intermediários ou do tipo trans- sintetizados no rúmen, absorvidos pelo intestino delgado e incorporados pela glândula mamária na gordura do leite. Quando as concentrações de ácidos graxos trans- do leite aumentam, a concentração total de gordura do leite diminui (Figura 4). Observe que após a infusão de ácidos graxos do tipo trans-, o teor de gordura caiu de 3,3 para 2,6% e de 4,1 para 3,2% nos experimentos de Cornell e Maryland, respectivamente.

Figura 4. Concentração de gordura no leite após infusão de ácidos graxos do tipo trans-:


Concentração de gordura na dieta
Aumentar a concentração de ácidos graxos insaturados na dieta pode causar inúmeras mudanças na distribuição da população microbiana e alterações características fermentativas do rúmen. Uma vez que algumas populações de micro-organismos ruminais são mais sensíveis que outros, essas mudanças redirecionam a forma que a biohidrogenação acontece, causando acúmulo de ácidos graxos trans-, resultando em DGL. Na figura 5 podemos observar algumas das principais fontes de ácidos graxos insaturados na dieta de bovinos de leite no Brasil.
Considerando dietas típicas brasileiras em que a fonte de concentrado é basicamente milho,
Considerando dietas típicas brasileiras em que a fonte de concentrado é basicamente milho, soja e algodão; e a fonte de volumoso é silagem de milho e gramíneas, a concentração de ácidos graxos insaturados, principalmente aqueles com duas ligações ou mais é bastante abundante. Dessa forma devemos realmente ser cautelosos em qualquer inclusão ou mudança de níveis de gordura da dieta, uma vez que pequenas mudanças podem causar grandes alterações na fermentação e microbiota ruminal, resultando em DGL.
Estudos realizados por pesquisadores na Universidade de Michigan ilustram muito bem a intensidade da DGL quando fontes de ácidos graxos insaturados é parte da alimentação de vacas em lactação. Ainda, quanto mais insaturações conter as fontes de gordura adicionadas à dieta, mais acentuada a queda nas concentrações de gordura do leite (Figura 6).

Figura 5. Composição de ácidos graxos de ingredientes típicos em dietas de vacas de leite no Brasil.


Figura 6. Efeito da adição de diferentes fontes de gorduras, de acordo com o grau de insaturação, em dietas de vacas de leite em lactação.


Alternativas para driblar a DGL
Recentemente, pesquisadores da Esalq, Universidade de São Paulo, em Piracicaba, demonstraram os efeitos da suplementação de duas fontes distintas de gordura inerte na alimentação de vacas de leite cruzadas em sistema de pastejo rotacionado ao longo da lactação e seus efeitos na produção de leite e sólidos em geral (Figura 7).
Figura 7. Produção e composição de leite de vacas suplementadas com gordura inerte durante a lactação.


Em relação ao controle, ambas as fontes de gordura aumentaram a produção de leite diária, e ainda quando comparada às duas fontes, a suplementação de óleo de palma foi superior à soja. Uma vez que o óleo de soja é rico em gordura poli-insaturada (ver descrição da figura 5), principalmente ácido linoleico, esperava-se as vacas suplementadas com essa fonte apresentassem DGL, porém, é interessante frisar que os efeitos da DGL são corrigidos quando outra fonte de gordura – no caso óleo de palma – é utilizada.
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O óleo de palma apresenta mais de 50% de gordura saturada, que por não apresentar duplas ligações, afeta de maneira mínima a biohidrogenação e consequentemente proporciona aos animais uma produção de leite pela glândula mamária adequada. Mais uma vez observa-se como o aumento de óleos e gordura ricos em ácidos graxos poli-insaturados pode comprometer o teor de gordura no leite, principalmente em dietas típicas brasileiras.

Considerações finais
No artigo de hoje apresentamos o que é e como acontece a chamada DGL, e como a concentração de ácidos graxos poli-insaturados pode afetar a síntese de gordura pela glândula mamária. Suplementação de gordura é comumente utilizada para aumentar a densidade energética da dieta e otimizar a produção de leite. Nem todas as fontes de óleos e gordura disponíveis para alimentação de bovinos são iguais. Conhecer que tipo de ácidos graxos e o processo como são produzidos e extraídos de cada fonte é importante na hora da tomada de decisão da inclusão ou não desses produtos nas dietas de nossas vacas.
De maneira geral, fontes de gordura oriundas de óleo de palma que apresentam uma concentração de ácidos graxos saturados e monoinsaturados maior que de outras fontes vegetais como soja, girassol e milho favorecem a concentração de gordura no leite em dietas de baixa quantidade e qualidade de forragem com alta concentração de grãos. Realidade muito comum em dietas de vacas em lactação no Brasil. Lembre-se de considerar que os potenciais efeitos da suplementação de cada tipo gordura nas dietas de vacas de leite é ferramenta essencial para maximizar consumo, produção de leite e ainda evitar a prevalência de DGL, mantendo assim teores adequados de gordura no tanque.
No nosso último artigo apresentamos que certos tipos de dietas podem causar acentuada redução na produção de gordura do leite, e essa redução é conhecida por depressão da gordura do leite (DGL). A DGL é resultado de alterações específicas na biohidrogenação de ácidos graxos (AG) insaturados provenientes da dieta, levando a passagem de novos subprodutos intermediários para o intestino, que subsequentemente, causam redução na síntese de gordura pela glândula mamária.
Dois fatores são fundamentais para a ocorrência da DGL, a oferta de AG poli-insaturados da dieta, discutido no último artigo, e a alteração no padrão de fermentação ruminal (Tabela 1). No artigo de hoje discutiremos como a alteração no padrão de fermentação ruminal causada pela alimentação pode afetar a produção de gordura pela glândula mamária resultando em quedas drásticas nos valores do teor de gordura do rebanho.
Tabela 1. Potenciais fatores de riscos para redução do teor de gordura do leite e áreas para desenvolvimento de estratégias nutricionais a fim de atenuar o risco de DGL.


Alteração do ambiente ruminal
Fatores que afetam o ambiente ruminal são os primeiros parâmetros considerados no controle de DGL em rebanhos leiteiros. Baixo pH é o principal fator no ambiente ruminal que leva o maior fluxo de AG para caminhos alternativos de biohidrogenação, resultando em maior concentração de subprodutos intermediários, conhecido com trans-, que causam a DGL. Uma vez que o pH ruminal é determinante na população bacteriana do rúmen, mudanças nessa população causam DGL no rebanho.
Em suma, o pH ruminal é representado pelo balanço entre a produção de ácidos provenientes da fermentação de carboidratos do rúmen, produção de tamponantes da saliva e ingredientes da dieta, e principalmente a taxa de remoção de ácidos através da absorção pela parede ruminal e pela passagem do rúmen para o intestino. Pesquisadores da University of Wisconsin em Madison, EUA, demonstraram a variação de pH ruminal durante um período de 24 horas e resultados de vários fatores dinâmicos que se interagem a todo momento. Dentro desses fatores incluímos:
– Perfil de carboidrato da dieta e taxa de degradação das frações de carboidratos afetados pela fonte, processamento e umidade;
– Oferta de FDN fisicamente efetivo afetado pela fonte e tamanho de partícula;
– Produção de tamponantes salivares como função do FDN fisicamente efetivo ofertado e fonte.
Tabela 2. Efeito do método de processamento de milho e a concentração de amido da dieta na síntese de gordura do leite.


Mesmo que a mensuração do grau e da duração do baixo pH ruminal exigido para causar maior fluxo de AG para rotas alternativas de biohidrogenação ainda não é totalmente conhecida, inúmeros estudos demonstram que mesmo pequenas alterações no pH ruminal está associado a DGL, já que essas alterações levam a mudanças na população bacteriana, principalmente naquelas espécies sensíveis ao ambiente ácido, resultando na maior produção de AG do tipo trans-, que é pré-requisito para DGL.
O efeito do método de processamento de milho é bastante conhecido no risco de DGL. Pesquisadores do Canadá reportaram 10% de redução na produção de gordura do leite quando grão de milho floculado foi substituído por grão de milho seco e moído. Mesmo que não exista um fator agindo isoladamente, esses resultados reforçam a ideia de considerar a taxa de fermentação das fontes de carboidratos como estratégia de controle de DGL. Da mesma forma, pesquisadores de Cornell, EUA, ofereceram dietas contendo silagem de milho de grão úmido e grão de milho seco e moído em dois níveis dietas com alta ou baixa concentração de amido (Tabela 2).
Animais que receberam dietas de baixo nível de amido não apresentaram diferenças no leite entre os tipos de processamento de grão de milho, porém no tratamento de alto amido, animais que receberam silagem de grão úmido de milho reduziram 15% da produção total de gordura do leite ou do teor de gordura em 0,54 pontos percentuais, quando comparados com o grupo de animais que receberam grão de milho seco e moído.
Outra informação bastante interessante é que vacas leiteiras que recebem silagem de milho como única ou principal fonte de volumoso são mais susceptíveis a DGL, principalmente quando AG insaturados também são suplementados na dieta. A substituição parcial da silagem por outra fonte de volumoso, como alfafa e gramíneas, podem aliviar os efeitos negativos da DGL (Tabela 3).
De acordo com os resultados, animais recebendo dietas com 50% de volumoso, sendo este 100% silagem de milho, e adição de 2% AG insaturados apresentaram menor produção total e concentração de gordura, uma vez que aumentaram a produção de trans-10 C18:1 na glândula mamária. Essa situação é revertida quando metade da silagem de milho é substituída por outra fonte de forragem, no caso do experimento alfafa.
Tabela 3. Efeito da suplementação de AG insaturado na fermentação ruminal e síntese de gordura na glândula mamária em vacas de leite recebendo dietas a base de silagem de milho ou silagem de milho + alfafa.


Outros hábitos de manejo também podem afetar negativamente a produção de gordura pela glândula mamária. O tamanho da partícula da forragem é bastante importante para manutenção do pH ruminal, assim problemas relacionados ao fornecimento correto da efetividade de fibra resultam em menor teor de gordura no leite. Uma redução do tamanho da fibra da silagem de milho de 3,1 mm para 2,0 mm pode resultar em quedas no teor de gordura em até 30%, independentemente da fonte de volumoso. Dessa forma é importante lembrar que os cuidados relacionados ao tamanho da partícula são fundamentais para evitar DGL em rebanhos leiteiros, e que nem sempre o tamanho da partícula de fibra da forragem colocada no vagão é a mesma encontrada no cocho, já que dependendo do vagão, o tempo de mistura da dieta pode reduzir o tamanho da fibra em poucos minutos (lembre-se que é necessário o mínimo de 21% de FDN fisicamente efetivo na dieta para produzir leite com 3,5% de gordura).
Da mesma forma cuidados com fibras muito longas é também importante para prevenção da DGL. Dietas que favorecem a seleção de concentrado pelos animais aumentam o risco de DGL na fazenda, e ainda, ofertar volumoso separado do concentrado, hábito de manejo muito comum em propriedades leiteiras por todo o Brasil, resultam em queda da gordura do tanque além de aumentar o risco de acidose. Nas fazendas onde o trato é oferecido em forma de dieta total, cuidados com a oferta ao longo do dia é crucial para o bom funcionamento do rúmen, evitando principalmente grandes picos de ingestão e consequentemente queda drástica no pH ruminal.
Uso de ionóforos
É bastante comum relacionar a suplementação de monensina sódica com queda da produção e do teor de gordura do leite nas mais diversas fases de lactação. A monensina afeta as taxas de biohidrogenação por alterar o padrão de fermentação e selecionar categorias específicas de bactérias, resultando em maior produção de intermediários do tipo trans- no rúmen. Esses efeitos são provavelmente resultados de interações com outros ingredientes da dieta e ações de manejo que predispõe vacas a DGL. Mesmo que uma pequena porção de AG insaturados passe por biohidrogenação através das vias alternativas que resultam em AG intermediários do tipo trans-, a onensina sem dúvida pode potencialmente aumentar a passagem desses intermediários para o duodeno e aumentar o risco de DGL.
Resultados de um levantamento bastante interessante realizada por pesquisadores da Universidade de Montreal no Canadá são apresentados na Tabela 4. Nesse levantamento realizado em 47 propriedades leiteiras, identificou-se o efeito na suplementação de monensina de acordo com a concentração de CNF, tamanho de fibra efetiva e o uso de feno nas dietas dos animais. Independentemente do CNF, tamanho de partícula e feno, a monensina reduz expressivamente a concentração de gordura do tanque dessas propriedades, porém em rebanhos cuja dieta apresenta alto CNF, ou baixa fibra efetiva ou ausência de feno, a queda do ter de gordura do tanque é ainda maior.

Além dos efeitos deletérios da monensina na gordura do leite de acordo com a concentração de CNF e efetividade da dieta, na presença de fontes de AG poli-insaturados, a monensina pode ainda agravar a queda de gordura do tanque. Pesquisadores da Universidade de Guelph, Canadá suplementaram concentrações crescentes de óleo de soja para vacas leiteiras em dietas contendo ou não monensina. Como foi discutido no nosso último artigo, o aumento da quantidade de AG poli-insaturados da dieta, no caso o óleo de soja, levou a queda do teor de gordura devido ao aumento do AG insaturados do tipo trans-, porém, de acordo com esses pesquisadores, a queda foi ainda maior quando a dieta continha monensina (Figura 1).
Esse cenário demonstra de forma bastante clara o potencial negativo para manutenção dos teores de gordura do leite, em rebanhos recebendo nossas dietas mais tradicionais. De maneira geral, dietas no Brasil são marcadas pela alta concentração de CNF e amido devido à baixa oferta e baixa qualidade de volumoso e ainda com crescente uso de óleos e outros subprodutos provenientes do processamento de oleaginosas, como alternativa para viabilizar alto custo da dieta. Tudo isso somado as altas temperaturas e meses de massiva umidade. Por isso existe um desafio tão grande de se manter saúde ruminal e qualidade do leite em nossas propriedades.
Figura 1. Efeito de três níveis de óleo de soja em dietas contendo ou não monensina* no teor de gordura e concentração de trans-10 C18:1 no leite.


Novas tecnologias
Dentre todos os aditivos presentes no mercado, a virginiamicina tem mostrado resultados bastante consistentes na manutenção do pH ruminal e incremento do teor de gordura do leite. A virginiamicina é um aditivo zootécnico melhorador de desempenho não-ionóforo, com indicação de uso pelo MAPA para aumento de produção e qualidade de leite. Oriunda da fermentação de Streptomyces virginae, a molécula foi descoberta na Bélgica em 1954 demonstrando grande capacidade em inibir crescimento de inúmeras bactérias Gram +. A virginiamicina é um potente inibidor de ácido lático no rúmen, uma vez que atua diretamente em Streptococcus bovis, Lactobacillus spp. e Fusobacterium necrophorum, reduzindo a incidência de acidose clínica e subaguda, abcessos hepáticos e principalmente otimizando pH ruminal, essencial para uma biohidrogenação adequada e incremento dos teores de gordura do leite.
O mecanismo pelo qual a virginiamicina aumenta a produção de gordura pela glândula mamária ainda não é totalmente conhecido, porém resultados demonstram que o maior pH ruminal, como resultado da queda da produção de ácido lático no rúmen, aumenta a população de bactérias específicas no rúmen responsável por transformar AG insaturados em AG saturados. Uma vez que essas bactérias são ácido-sensíveis, o baixo pH, normalmente encontrado no rúmen de vacas de leite por horas após ingestão de alimento, acaba inibindo o seu crescimento, porém com a presença da virginiamicina esse crescimento é favorecido.
Pesquisadores do Paraná observaram maior pH ruminal em vacas de leite recebendo 8 kg de concentrado contendo virginiamicina. Nesse experimento, o maior pH ruminal foi resultado da inibição da produção de ácido lático do rúmen, com incremento de ácido acético (um dos precursores de gordura do leite) e sem alteração das concentrações de propionato (Tabela 5).
Tabela 5. Efeito da suplementação da Virginiamicina no pH ruminal e produção de AG voláteis no rúmen.


Esses resultados positivos na manutenção do pH ruminal e redução da produção de lactato no rúmen estão diretamente relacionados com o incremento de gordura observado no campo e em outros experimentos avaliando o uso da virginiamicina em rebanho leiteiros. Em outro estudo, observou-se efeito positivo da virginiamicina na produção de gordura, mesmo quando esses animais estavam recebendo dietas com monensina (Tabela 6). Uma vez que é bastante comum o uso de monensina em dietas de vacas em lactação no mundo todo, inclusive no Brasil, o uso de virginiamicina deve ser considerado com a finalidade de maximizar a produção de sólidos sem que haja algum efeito negativo da produção de leite.
Tabela 6. Efeito da virginiamicina e a interação monensina/virginiamicina na produção de leite e sólidos em vacas holandesas em sistema de pastejo tropical.
Em uma recente análise de compilação de dados realizada pelo nosso grupo envolvendo sete experimentos, demonstrou-se mais uma vez os benefícios da virginiamicina no incremento de gordura (Figura 2). Na média, dos sete experimentos a virginiamicina apresentou incremento de 0,26 pontos percentuais na concentração de gordura quando comparada ao grupo que não recebeu virginiamicina, sendo que em dois dos experimentos, esse incremento foi maior que 0,40, confirmando que a molécula é uma ferramenta estratégica para maximizar síntese de gordura no leite, já que oferece maior segurança ruminal.
Figura 2. Resposta na concentração (%) de gordura no leite de vacas leiteiras suplementadas com virginiamicina, em relação ao grupo controle (sem virginiamicina) em sete diferentes experimentos. Informação do gráfico indica pontos percentuais do grupo recebendo virginiamicina em relação ao controle (valor 0%).
Considerações finais
No artigo de hoje apresentamos como diferentes fatores relacionados à dieta e alimentação de vacas leiteiras podem levar a alterações no ambiente ruminal, resultando em redução da síntese de gordura pela glândula mamária. Situações rotineiras que favorecem a queda do pH ruminal devem ser observadas e remediadas a fim de reduzir o risco de DGL. Ainda, existem aditivos como a virginiamicina, que servem como ferramentas estratégicas para manutenção dos teores de gordura do rebanho. Em termos práticos, não é apenas o incremento no valor pago pelo litro de leite que o alto teor de sólidos do tanque pode proporcionar, mas é importante lembrar também que vacas com rúmen saudável produzem mais leite e leite com mais sólidos

















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