TECNICAS PARA MANEJO DE BEZERROS LEITEIROS. 5 DE 5.

Fase pré-parto

Os cuidados com a futura produtora de leite deve
começar antes mesmo do seu nascimento. A mãe da
bezerra deve apresentar uma condição corporal adequada.
Problemas metabólicos como cetose (vacas muito gordas),
redução no teor de gordura do leite e anestro temporário
(vacas muito magras) são facilmente identifi cados em
animais com escore corporal inadequado.

A mãe da futura bezerra deve estar seca (sem produzir leite) pelo
menos 60 dias antes do parto previsto. Além de proporcionar um repouso fisiológico da glândula mamaria, favorece maior produção de colostro (leite rico em imunoglobulinas produzido logo após o parto). O local onde ela ficará alojada também é de fundamental importância: deve ser levada por volta de 60 dias antes do parto para um piquete ou pasto com visibilidade favorecida (caso haja necessidade de intervenção durante o parto). Este pasto maternidade deve conter forragem de boa qualidade, bem como água limpa, sal mineral e sombra.
A vacinação cerca de 30 dias antes do parto contra paratifo (diarreia
causada por Salmonella spp.) é um manejo sanitário que deve ser adotado.
Isso irá proporcionar uma produção de anticorpos contra a doença que pode
chegar à bezerra através do colostro.
Colostro
O colostro, como já mencionado, é o leite produzido pela mãe logo
após o nascimento da bezerra. Possui algumas peculiaridades que o diferem do leite normal, como coloração, viscosidade e composição. É de fundamental importância para proporcionar imunidade passiva (proteção) à bezerra, já que o sistema imune dela não lhe proporciona esta condição. Apresenta uma maior viscosidade, cor amarelo-avermelhada e alta concentração de proteínas e imunoglobulinas, conforme tabela 1.

Tabela 1: Proteína total e concentração de imunoglobulinas no colostro dos
bovinos em relação ao tempo, após o parto (g/100 ml de colostro)

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Considerando a concentração de imunoglobulinas em relação ao
tempo após o parto, é importante ressaltar a necessidade de que as primeiras mamadas da bezerra aconteçam o quanto antes. As vilosidades intestinais  favorecem a absorção das imunoglobulinas (intactas) nas primeiras horas de vida. Esta absorção vai sendo dificultada com o passar do tempo atétornar-se inadequada depois de 36 horas do nascimento (Drackley, 2001). A quantidade também é relevante. A bezerra deve ingerir pelo menos três litros nas primeiras seis horas de vida e mais quatro litros nas primeiras 12 horas de vida (Drackley, 2001). Além da rapidez e da quantidade, a qualidade e a
sanidade do colostro também são de fundamental importância. A qualidade do colostro pode ser obtida por colostrômetros e refratômetros, enquanto que a pasteurização do colostro é eficaz para o controle de patógenos.
Existem linhas de pesquisa que defendem que até o colostro deve ser
fornecido em mamadeira e não diretamente na teta da mãe, sugerindo a sua pasteurização. A ideia de se ter um banco de colostro de boa qualidade também é bem difundida (deve ser armazenado congelado).
Alimentação Algumas questões importantes quando se aborda a alimentação e nutrição de bezerras:
Quantidade de leite fornecida por dia A quantidade de leite deve ficar entre seis e oito litros por dia. Podese usar um sucedâneo de boa qualidade que, em sua composição, deve se aproximar o máximo possível da composição do leite integral. É importante verificar a viabilidade econômica de utilização deste sucedâneo (preço) e a mão-de-obra disponível para adoção de tal prática de manejo. Vale ressalta que a água deve estar disponível sempre, bezerra que toma leite, também toma água.
Número de vezes que este leite é fornecido por dia Normalmente, por questões práticas, sugere-se o fornecimento do leite em duas refeições diárias (metade pela manhã e metade à tarde). Há  propriedades que adotam um único fornecimento diário (pela manhã). A alegação é de facilidade de manejo e maior consumo de concentrado na parte da tarde. Propriedades mais tecnificadas utilizam os alimentadores
automáticos; através de um colar de identificação, fornecem a quantidade indicada a cada bezerra (foto 1).

Foto1: Alimentador automático de bezerras

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Fornecimento de concentrado

A bezerra ao nascer possui um sistema digestório adaptado para
digestão de leite. Nos primeiros dias de vida, há a formação da goteira
esofágica que permite que o leite ingerido pela bezerra vá direto para o
abomaso. Entretanto, o fornecimento de concentrado já nos primeiros dias de vida promove um maior desenvolvimento das papilas ruminais, estruturas estas responsáveis pela absorção de AGV´s (Ácidos Graxos Voláteis). Bezerras que sofrem restrição de ingestão de concentrado na fase inicial da vida apresentam papilas menos desenvolvidas e menos pigmentadas, comprometendo a absorção de AGV´s (foto 2).

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Foto 2: Aspectos distintos do rúmen e retículo de bezerras com seis semanas de vida, onde (A)
recebeu leite e concentrado na dieta e (B) recebeu somente leite na dieta.

Fornecimento de forragem

Estudos indicam que o fornecimento de forragem em pequenas parcelasa partir da terceira semana de vida deve contribuir para o desenvolvimentofisiológico adequado do trato digestório e, consequentemente, da bezerra(Terré et al, 2014). Outro aspecto a ser considerado em relação à forragempara bezerras é o crescimento da microbiota ruminal celulolítica (capaz dedigerir a celulose das forragens). Esta microbiota tem a sua população norúmen aumentada de modo significativo por volta de quatro semanas devida (Anderson et al, 1987). Davis e Drackley (1998) sugerem que forragensinteiras e de folhas “grosseiras” não são adequadas para bezerras de seis aoito semanas de vida. Além da dificuldade de apreensão, há a dificuldade dedigestão. Entretanto, forragens tenras e com folhas finas e/ou “cortadas” sãorecomendas para bezerras desta idade. Algumas forragens cultivadas noBrasil são altamente recomendadas para bezerras como coast cross, tiftone alfafa.

Desmame
A idade para se desmamar a bezerra talvez esteja mais associado
ao sistema de produção do que a qualquer outro fator. Quando a bezerra estiver ingerindo cerca de 600 g a 750 g de concentrado/dia, o que ocorre por volta de 70 a 90 dias de vida, classifica-se esta bezerra como “apta” para a desmama (fim da ingestão de leite e/ou sucedâneo). Uma técnica desenvolvida na Argentina visa tornar as bezerras, animais ruminantes mais precocemente. Uma dieta seca, de alta digestibilidade, com alta concentração de óleos e proteínas de excelente qualidade, é tecnicamente vantajosa para desenvolvimento ruminal dos animais (Vittone et al, 2006). Bezerras com 35 a 40 dias de vida neste sistema, apresentam desenvolvimento ruminal compatível com bezerras de 120 dias no sistema tradicional.
Sistemas de criação.


Um bom sistema de criação deve sempre se preocupar em fornecer
condições às bezerras de crescerem saudáveis, bem alimentadas e estarem sempre confortáveis. O ambiente deve ser seco e sem correntes de vento. A temperatura ideal deve ser de 17°C e 21°C, com umidade relativa do ar entre 50% e 70%. A área destinada a cada animal também é importante sendo sugerido de 2,8 m² a 3 m² por bezerra (Hänninen, 2007). Os sistemas mais utilizados para criação de bezerras baseiam-se no alojamento individual (foto 3) ou em grupo (foto 4). Após o desaleitamento, normalmente, as bezerras são criadas em grupo. Hoje, principalmente no Brasil e Argentina, existe uma versão da criação individual, mais adaptada às nossas condições de clima e mão-de-obra, chamado de sistema argentino ou sistema tropical (foto 5), que prima por apresentar custos relativamente mais baixos se comparado às “casinhas” tradicionais.

Foto 3: Alojamento individual para criação de bezerras.

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Foto 4: Aleitamento de bezerras criadas em grupo (coletivo).

 

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Foto 5: Sistema Argentino ou Sistema Tropical.

 

Sistema individual

Apresenta vantagens como a diminuição do contato e,consequentemente, a minimização da transmissão de doenças entre asbezerras; o acompanhamento clínico individual de cada animal, o quefacilita a observação de qualquer problema de saúde, além de não existircompetição entre os animais. Por outro lado, há menor movimentação emenor socialização dos animais, o que pode afetar o comportamento doanimal no futuro. Outro aspecto negativo da criação individual está ligado àmaior exigência da mão-de-obra.

Sistema coletivo ou em grupoO sistema coletivo já minimiza o trabalho para alimentação dasbezerras e limpeza das instalações; apresenta também uma maiorsocialização entre os animais. Entretanto, este sistema parece mais propícioà propagação de doenças. Se por um lado, em relação à alimentação elimpeza das instalações, o trabalho é menor, é desejável que os funcionáriostenham experiência e conhecimento para detecção de qualquer problemasanitário e clínico em relação às bezerras (Coelho, 2014).DoençasAlgumas medidas são fundamentais para proporcionar proteçãoà bezerra nos primeiros dias de vida. Uma delas é a vacinação da mãeno período pré-parto contra paratifo. A mamada do colostro logo após onascimento da bezerra é de fundamental importância, já que seu sistemaimunológico não consegue proporcionar proteção nestes primeiros contatoscom patógenos. Outra medida extremamente eficiente é a cura do umbigocom iodo 10% durante os três primeiros dias de vida.A diarreia talvez seja a principal enfermidade que acomete bezerrasmais jovens. Na fase neonatal (até seis semanas de vida), várias infecçõespodem causá-la: E. coli, Cryptosporidium spp., rotavirus, coronavirus, Giargiaduodenallis, Eimeria spp., Strongyloides spp., Salmonella spp., Clostridiumperfringens, entre outros.Após seis semanas de vida, os quadros de diarreia são maiscomumente causados por Eimeria spp., Estrongyloides spp., Estrongilídeos,Giargia duodenallis e Salmonella spp. Para algumas doenças existemvacinas, outras têm antibióticos como tratamento, mas a prevenção é a melhormaneira de se evitar o problema. A limpeza das instalações e dos utensíliosutilizados para alimentar as bezerras é medida muito eficaz no combate àproliferação destes patógenos. Outro fator importante a ser mencionado éa fluidoterapia (hidratação) quando já se apresenta o quadro de diarreia.A desidratação é a maior causa de morte em animais com este problema.Outras doenças como babesiose e anaplasmose (conhecidascomo tristeza parasitária bovina) podem acometer bezerras nesta fase dealeitamento, embora sejam mais comuns os casos após a desmama. Omesmo acontece com problemas respiratórios que aparecem, na maioriados casos, após o desaleitamento.Algumas vacinas e vermifugações são comumente utilizadas embezerras. Há variações de acordo com a assistência técnica e com a regiãoonde se encontra a propriedade. A figura 1 apresenta as mais importantes..

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Figura 1: Estratégias de vacinação e vermifugação em bezerras.

 

Considerações finais

Não existe “o melhor sistema”. Não há um sistema que se adapta atodas as situações, mas pode haver um que seja o melhor para determinadasituação ou propriedade. Ao escolher um sistema, deve-se considerar oscustos de instalação e durabilidade, custo com mão-de-obra e eficiência dotrabalho. É preciso entender que, mesmo com excelentes instalações, osresultados ruins podem aparecer se o manejo não for adequado (Coelho, 2014).Prevenir doenças é melhor que tratá-las. Medidas de manejofavorecem a ausência de determinados patógenos na propriedade,diminuindo custos com medicação e favorecendo o crescimento satisfatórioe desejado às bezerras.

3 replies to “TECNICAS PARA MANEJO DE BEZERROS LEITEIROS. 5 DE 5.

  1. Muito bom o texto, excelente material! já utilizei o sistema modelo argentino numa propriedade que fazia assessoria tecnica e os resultados foram bons.

    Curtido por 1 pessoa

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