A raça Morada Nova: adaptabilidade e rusticidade para enfrentar as mudanças climáticas.

O Brasil é um país de dimensões continentais, com grande variação de climas, que já enfrenta os efeitos das mudanças climáticas. As projeções de cenários futuros mostram que o país experimentará impactos de forma diferenciada. Considerando o cenário sem medidas para redução de emissões de gases de efeito estufa, a região Norte poderá sofrer um aumento de 4 a 8 °C, com redução de 15% a 20% do volume de chuvas e atrasos na estação chuvosa; as regiões Nordeste e Sul poderão ficar 2 a 4 °C mais quente; já o Sudeste e o Centro-Oeste 3 a 6 °C. Os possíveis impactos no Nordeste, como aumento das secas, especialmente no semiárido, afetarão a agricultura de forma geral e principalmente a de subsistência, provocarão perdas na biodiversidade da caatinga e aumentarão os riscos de desertificação.

De acordo com as previsões climáticas, os efeitos do aquecimento global poderão ser amenizados, porém inevitáveis, sendo necessário, portanto, a realização de pesquisas para identificação de animais e plantas que tenham comprovada resistência às altas temperaturas, bem como a provável capacidade de adaptação às mudanças climáticas, visando a sustentabilidade das atividades agropecuárias e a permanência das populações em suas regiões. No caso particular do Nordeste em que mais de 90% de sua área é semiárida, o estudo e a preservação das raças nativas/naturalizadas são imprescindíveis. Tratando-se da criação de ovinos, em conformidade com dados da Pesquisa Pecuária Municipal para ano de 2010 (IBGE, 2011), o rebanho brasileiro de ovinos era constituído de 17.380.581 cabeças, com maior representação nas regiões: Nordeste e Sul (Figura 1).

Figura 1 – Efetivo do rebanho ovino brasileiro em milhões de cabeças em 2010. (Fonte: (http://www.sidra.ibge.gov.br/bda/tabela/listabl3.asp?c=73&n=0&u=0&z=t&o=24&i=P)

Dentre as raças de ovinos criadas no Nordeste, as deslanadas, em virtude da maior capacidade de tolerância ao calor, compõem a maior parte do efetivo do rebanho desta região; sendo as principais: Santa Inês, Morada Nova, Somalis Brasileira, Rabo Largo, Cariri e Damara. Neste artigo são apresentados alguns dos aspectos de importância da raça Morada Nova.

A raça Morada Nova é originária do Nordeste do Brasil, segundo alguns autores a referida raça descende dos carneiros Bordaleiros de Portugal, trazidos para o Brasil na época da colonização, outros citam que esses animais teriam vindo da África, provavelmente na época do tráfico de escravos, e de acordo com Facó et al. (008) é muito provável que a raça Morada Nova tenha contribuições tanto de carneiros ibéricos quanto africanos, tendo os descendentes destes se ajustado às condições ambientais do Nordeste.

Figura 2 – Exemplares da raça Morada Nova. (Fonte: http://abmova.zip.net/ (2011)

Em trabalho realizado por Santos et al. (2006) estudando ovinos de cinco genótipos (Santa Inês, Morada Nova, ½ Santa Inês + ½ Dorper, ½ Santa Inês + ½ Morada Nova, ½ Morada Nova + ½ Dorper), concluíram que todos apresentam alto grau de adaptabilidade às condições semiáridas do Brasil.

Contudo, a raça Morada Nova merece destaque (Gráfico 3), pois quando comparada com as demais raças ela manteve a homeotermia com menor esforço do aparelho termorregulador, pois apresentou uma menor frequência respiratória no turno da tarde, consequentemente é possível que tenha havido um menor gasto energético para esta função fisiológica, o que poderia classificá-la como melhor adaptada em relação aos demais grupos estudados.

Figura 3 – Temperatura retal (TR) e Frequência Respiratória (FR) de ovinos dos grupos genéticos: Santa Inês, Morada Nova, ½ Santa Inês + ½ Dorper, ½ Santa Inês + ½ Morada Nova, ½ Morada Nova + ½ Dorper, no período da tarde, no semiárido. (Fonte:(http://www.cstr.ufcg.edu.br/bioclimatologia/artigos_cientificos/respostas_fisiologicas_gradientes_termicos_ovinos_racas.pdf)

Com relação ao desempenho, essa raça por apresentar características apropriadas para enfrentar a adversidade climática do semiárido, como por exemplo, o porte pequeno, de forma que não se pode esperar que a mesma apresente um desenvolvimento e desempenho semelhante às raças especializadas, selecionadas em regiões de climas mais favoráveis. Contudo, em teste de desempenho realizado foi registrado um ganho médio diário de 160 g, mas os animais superiores alcançaram ganho acima de 200 g (http://abmova.zip.net).

De acordo com Facó et al. (2008) embora a raça Morada Nova seja uma das principais raças nativas de ovinos deslanados do Nordeste do Brasil, os rebanhos dessa raça tem sofrido uma redução, porque muitos criadores têm optado pela criação de outras raças como a Dorper e, principalmente, a Santa Inês, e que somando-se aos cruzamentos indiscriminados com animais de raças exóticas, tem posto em risco a existência e a preservação deste importante genótipo.

Considerações

Os programas de Governo para a Ovinocultura no semiárido necessitam atender às exigências para elevar a produção em níveis adequados, preservando o meio ambiente e o patrimônio genético (animal e vegetal) de forma sustentável. A utilização de raças especializadas para cruzamentos com animais SRD e raças nativas/naturalizadas, deve ser bem orientada no sentido de preservar o patrimônio genético construído durante vários anos (raças nativas), que é de grande importância para o Brasil.

Dentre as várias raças de ovinos deslanados, a Morada Nova por apresentar um padrão definido e sua adaptação comprovada na prática e cientificamente, para produzir no semiárido, recomenda-se incentivos por parte dos governos através de políticas públicas, para que os produtores possam preservar e melhorar as qualidades produtivas da mesma sem reduzir sua tolerância às condições adversas da região semiárida.

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