Fundamentos do manejo do pastejo.

O pastejo é o processo de colheita da forragem diretamente pelo animal, sendo o processo básico de alimentação de animais em sistema de produção baseados em pastagens.

Ao longo de várias décadas, notadamente na segunda metade do século XX, universidades e centros de pesquisa no Brasil no mundo dedicaram esforços para entender e aperfeiçoar o controle sobre o processo de pastejo. Apesar disso, para o grande público, inclusive boa parte dos diretamente envolvidos no setor produtivo, muitos dos aspectos relacionados ao manejo ainda são obscuros, desconhecidos ou de entendimento duvidoso.

O passo inicial para a mudança nesse cenário é o entendimento de que o manejo do pastejo, por definição, compreende um conjunto de critérios usados para a tomada de decisão e para o gerenciamento e condução do rebanho nas áreas de pastagem, de maneira a se atingir um determinado objetivo. Esse objetivo normalmente é diferente em cada propriedade, podendo ir do aumento da produtividade de capim em uma determinada época do ano à melhora no desempenho individual dos animais, todos convergindo para o objetivo fundamental de aumentar a rentabilidade do negócio.

O manejo do pastejo é uma ferramenta poderosa na determinação da produtividade, qualidade, e perenidade das pastagens, e do desempenho produtivo dos animais que a pastejam. Assim, a adoção de formas de manejo do pastejo adequadas a cada propriedade é um dos componentes-chave no estabelecimento de sistemas de produção eficientes e no sucesso da empresa agropecuária.

Aspectos a considerar na idealização do manejo do pastejo

A implementação de um programa adequado de manejo do pastejo depende do conhecimento de uma série de outros aspectos inerentes ao sistema além, de fatores externos ao sistema. O manejador deve ser capaz de responder a uma série de perguntas para que tenha a visualização completa dos possíveis gargalos existentes no sistema, tais como:

  • Quais as exigências edáficas das espécies forrageiras a serem manejadas? (incluídas aí as características químicas de fertilidade e as físicas, como textura, estrutura, pedregosidade, profundidade, e drenagem);

  • Quais as características climáticas do local onde se pretende instalar o sistema? (temperaturas, pluviosidade e variação anual no comprimento do dia);

  • Quais as caraterísticas morfológicas e fisiológicas da espécie/cultivar forrageira escolhida? (hábito de crescimento, presença de estolões ou rizomas, dinâmica de elevação do meristema apical, padrões de perfilhamento, fenologia);

  • Quais as exigências nutricionais das categorias animais que irão utilizar o novo pasto? Qual a capacidade da espécie forrageiras escolhida em suprir tais necessidades?;

  • Quais as estratégias de monitoramento e reposição de fatores potencialmente limitantes da produção, como fertilidade ou água?;

  • Qual a possibilidade de se flexibilizar a infraestrutura da propriedade? (bebedouros, saleiros e cercas);

  • Qual o nível de preparo e habilidade da equipe de trabalho da propriedade para executar as ações necessárias?

A partir do conhecimento de tais características é possível estabelecer níveis hierárquicos de recursos envolvidos no processo produtivo (Figura 1) e idealizar um sistema de produção, incluindo as estratégias de manejo do pastejo, as quais só devem ser contempladas quando as bases conceituais do sistema forem compreendidas e identificadas.

Figura 1. Arranjo “hierárquico” de fatores no estabelecimento de um sistema de produção animal baseado em pastagens. (Adaptado de Adaptado de Sheath e Clark, 1996)

Ajustando as exigências de plantas e animais

As plantas forrageiras e os animais apresentam necessidades específicas para se manterem vivos e produtivos. A incompatibilidade entre essas necessidades é o grande dilema ao se realizar o manejo do pastejo. Essa incompatibilidade se deve ao fato de que, muitas vezes, as exigências de plantas e animais de alguma forma se contrapõem. E é o manejo do pastejo que deve determinar o nível de equilíbrio entre esses aspectos antagônicos.

Essa “competição” se caracteriza pelas vantagens para as plantas: manterem seus pontos de crescimento intactos, ter alguma reserva de energia (estolões ou raízes) e, idealmente, ter área foliar após o pastejo para fazer fotossíntese e rebrotar. Em contraposição, os animais por sua vez, procuram colher (pastejar) forragem nos estratos superiores da vegetação, onde às vezes se encontram os meristemas, e a área foliar mais jovem e mais fotossinteticamente ativa. Os animais buscam tecidos vegetais jovens, mais digestíveis e nutritivos, em quantidade e qualidade adequadas às suas necessitas para se manterem produtivos. Planta e animal “gostariam” de ter a mesma coisa.

O conhecimento das características de plantas e animais, e das estratégias de manejo, permitem ao manejadores, indivíduos que conduzem o processo de manejo do pastejo, privilegiar um ou outro dos componentes quando isso é interessante, mas sempre mantendo os animais e a pastagem dentro de limites toleráveis, que não comprometam a sua estabilidade como ecossistema e, em última análise, a sua perenidade e produtividade. dentro de determinados limites (Figura 2). É possível favorecer o desempenho animal individual ou então a produção animal por unidade de área (por exemplo, ganho de peso por hectare). Assim sendo, os manejadores podem eleger alternativas de manejo que favoreçam as pastagens em um determinado momento, ou os animais em outro. Para isso, critérios como a oferta de forragem (kg MS por kg peso vivo) ou a taxa de lotação (número de animais ou Unidades Animais por hectare), tem se mostrado capazes de promover mudanças no desempenho e no ganho por hectare. Num patamar mais elaborado de manejo, a manipulação do pasto (altura, área foliar, densidade, etc.) pode promover ajustes finos importantes nas respostas animais e a pesquisa tem mostrado resultados promissores com várias espécies de gramíneas forrageiras tropicais. Produtores Brasil afora têm se profissionalizado e obtido resultados altamente positivos, a partir do momento em que se tornam condutores do processo de pastejo e exercem controle efetivo sobre a colheita de forragem pelos animais.

Figura 2. Relação entre oferta de forragem, desempenho animal e a faixa ótima de manejo do pastejo (Adaptado de Mott, 1973).

Pontos críticos na determinação da estratégia de manejo a ser adotada:

Dentre os componentes de um sistema de produção animal baseado em pastagens, além dos citados anteriormente, deve-se perguntar quais serão os critérios a serem usados como referencia para a determinação das estratégias de manejo, e dos métodos de pastejo. Por exemplo, altura do pasto (de entrada/saída, ou altura a ser mantida, no caso de lotação contínua), intervalo (cronológico ou fisiológico) entre dois pastejos sucessivos, bem como as alternativas para se quantificar o alimento existente (massa de forragem de entrada ou de saída, ou existente, no caso de contínuo).

De forma geral, os dois primeiros são determinados em função de outras características, relacionadas ao perfil da propriedade, sua localização, tipo de solo, topografia e clima, na etapa de concepção do sistema de produção (Figura 1), mas condicionam as opções de estratégia de manejo do pastejo a serem adotadas.

Decisões ligadas ao manejo do pastejo têm enfatizado dois aspectos: a frequência de pastejo, ou o número de colheitas num dado intervalo de tempo (Figura 3) e a intensidade de pastejo, ou a proporção do material presente no pré-pastejo, da massa de forragem acumulada, é retirada no evento do pastejo (Figura 4).

Figura 3. Exemplo de diferentes frequências de pastejo: A= menor B= maior.

Figura 4. Exemplo de diferentes intensidades de pastejo: A= menor B= maior.

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