Cruzamentos entre raças leiteiras: aspectos sobre saúde e longevidade .

Já discutimos nos textos anteriores os impactos da adoção de diferentes cruzamentos entre raças leiteiras em características importantes na bovinocultura de leite como fertilidade, resistência a mastites, rusticidade e adaptabilidade aos ambientes tropicais e subtropicais. Retomando esta discussão, vamos abordar agora alguns estudos que avaliaram a sobrevivência, a saúde, as taxas de descarte e desta forma, a longevidade de matrizes puras e oriundas de cruzamento.

De acordo com o estudo antigo de Ducrocq et al. (publicado em 1988), a longevidade é uma característica altamente desejável em rebanhos de leite, pois, indica o tempo que o animal permanece no rebanho, afetando, de forma expressiva, a rentabilidade total e por dia de vida do animal no sistema de produção. Já a duração da vida produtiva (ou vida útil para alguns autores) é definida como o número de dias decorridos a partir do primeiro parto até a morte ou descarte do animal (DUCROCQ et al., 1994). A longevidade combina todas as características que estão diretamente associadas à capacidade de uma vaca permanecer com sucesso no rebanho (conforme trabalho mais recente publicado por TSURUTA et al., 2005).

Para Madalena (2007), é amplamente aceita a existência de antagonismo genético entre produção de leite e forma leiteira com incidência de doenças. A raça Holandesa também evoluiu para um animal com maior ocorrência de doenças, com redução da vida útil e aumento da mortalidade (LEDIC e TETZNER, 2008). Entre as doenças mais citadas pelos pesquisadores, comuns em gado leiteiro e causas de mortalidade, em especial em vacas de alta produção, está a mastite, a retenção de placenta, a distocia, a metrite, a cetose, a claudicação, a hipocalcemia e o deslocamento de abomaso, entre outras (MADALENA, 2007).

Na concepção de Hristov et al. (2013), a seleção para alta produtividade não deve ser à custa de outras características importantes, especialmente aquelas essenciais para a sobrevivência dos animais no ambiente em razão do clima, recursos alimentares e doenças.

Dados apresentados por Hare et al., (2006), demonstraram que a taxa de sobrevivência de vacas de dois partos da raça Holandesa nos Estados Unidos caiu de 77,3% em 1980 para 74,1% em 2000 e as taxas de sobrevivência para as vacas de três e quatro partos declinou de 56,6% em 1980 para 49,0% em 1999 e de 24,2% (em 1980) para 14,3% em 1997, respectivamente, conforme o Gráfico 1.

Esses pesquisadores ainda revelaram que houve uma redução do número de lactações por vaca, de 3,2 em 1980 para 2,8 em 1994. A vida útil da raça caiu de 36,5 meses em 1980 para 31,9 meses em 1994. Com base em estudos citados por Hristov et. al, (2013), com apenas 2 a 2,5 lactações, vacas leiteiras não expressam o seu potencial de produção, pois a eficiência da produção de leite aumenta exponencialmente até quatro lactações.

Observações adicionais foram relatadas na Nova Zelândia (HARRIS e KOLVER, 2000 apud WASHBURN, 2002), onde vacas puras Holandesas com genética provinda na maior parte da América do Norte tiveram 11% menor sobrevivência após uma lactação e 27% menor sobrevivência após cinco lactações em comparação com o Holandês “Friesian”.

Svendsen& A.-Ranberg (2000) apud Madalena (2007) relataram que a utilização da genética Holandês de origem americana na raça Norueguesa na década de 70 trouxe benefícios para a produção de leite. No entanto, os autores descreveram o aumento da incidência de doenças como mastite, hipocalcemia e cetose, além de infertilidade. Estes problemas foram trabalhados através da seleção, dando-se a eles um maior peso e reduzindo-se um pouco a importância da produção.

Gráfico 1 – Taxa de sobrevivência de vacas da raça Holandesa nos EUA até o ano 2000. Fonte: Adaptado de Hare et al., 2006.
 Cruzamentos entre raças leiteiras
Buscando alternativas em cruzamentos, Dickinson e Touchberry (1961) descobriram que durante a primeira lactação, 31% das vacas puras da raça Holandesa foram retiradas do rebanho em comparação a 15% de fêmeas resultantes do cruzamento de Holandês com a raça Guernsey. Touchberry (1992) cita que 80,3% de fêmeas cruzadas Guernsey/Holandês chegaram ao segundo parto, índice superior aos 64,5% encontrado em ambas as raças puras.

O mesmo autor ressaltou que durante todas as lactações a mortalidade foi maior entre os animais puros, sugerindo que os mestiços eram menos susceptíveis às doenças e dificuldades reprodutivas. Em outra ocasião, Heins et al. (2012) avaliando a mortalidade de vacas Holandesas e de cruzadas Holandês com a raça Montbeliarde, também descreveram maiores índices nas fêmeas puras (5,3%) em relação às mestiças na primeira lactação (1,7 %). Esses mesmos autores, citam trabalho realizado por Hocking et al. (1988) que já demonstravam dinâmica semelhante quando avaliaram vacas mestiças de Ayrshire e Holandês. Já Madalena (2007) reportou que a taxa anual de descarte de vacas na região do meio-oeste dos EUA tem sido de 38%, o que repercutia em altos preços de novilhas de reposição.

Heins et al. (2006) determinaram diferenças entre a raça Holandesa e fêmeas meio sangue Normando/Holandês, Montbeliárde/Holandês e Escandinavos Red (Sueca Vermelha e Branca/Norueguês Vermelho e Branco) com Holandês durante a primeira lactação também para o requisito sobrevivência. Conforme demonstra a tabela, todos os grupos oriundos de cruzamento sobreviveram mais tempo que o Holandês puro na primeira lactação, em diferentes períodos pós parto (30, 150 e 305 dias).

Indivíduos puros da raça Holandesa deixaram as propriedades mais cedo que os produtos cruzados. 92 a 93% das fêmeas cruzadas sobreviveram até os 305 dias em relação a 86% nas vacas Holandesas puras. Na visão dos autores, as taxas de sobrevivência mais elevadas observadas nos cruzamentos devem ter relevante impacto econômico e os resultados do estudo sugerem que os produtores de leite podem melhorar a sobrevivência das vacas cruzando fêmeas da raça Holandesapuras com outras raças de gado leiteiro.

Tabela 1 – Sobrevivência aos 30, 150 e 305 dias pós parto durante a 1ª lactação de animais puros e cruzados. Fonte: Heins et al. (2006b).

 Cruzamentos entre raças leiteiras

Figura 3 – Estudo de Heins et al. (2006b) demonstrou que 92% das fêmeas F1 Montbeliarde/Holandês sobreviveram até os 305 dias em relação a 86% nas vacas Holandesas puras.

 Cruzamentos entre raças leiteiras

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